Há algo de Dom Quixote em Leonardo Maretti, o anti-herói deste romance. Não porque confunda moinhos com gigantes, mas porque chega à América depois de passar anos construindo, através dos livros, uma imagem do mundo que pretende finalmente conhecer.Ele leu Kerouac, Burroughs e Ginsberg. Leu Bukowski, Hunter S. Thompson e os escritores do new journalism e do jornalismo gonzo. Aprendeu a desejar uma América feita de estradas, liberdade, sexo, álcool, literatura e personagens à margem. Quando finalmente consegue juntar algum dinheiro e parte para Nova York, acredita estar atravessando uma fronteira geográfica, quando na verdade está entrando no território de suas próprias fantasias.O problema é que a América não está esperando por ele.Em vez da aventura beat, há quartos apertados no Harlem, aulas de inglês, fast-food, imigrantes, bares, trabalhos precários, encontros amorosos que duram uma noite, paixões que deveriam durar para sempre e acabam em poucos dias, pequenas humilhações e grandes expectativas. O país dos livros vai sendo substituído, pouco a pouco, pelo país vivido.É nesse descompasso que Eduardo Ritter encontra a matéria de A última ressaca do sonho americano. Seu narrador é ao mesmo tempo aventureiro e ingênuo, cínico e sentimental, leitor voraz e personagem de sua própria ficção. Ele atravessa os Estados Unidos procurando aquilo que seus mestres literários lhe ensinaram a procurar — e, a cada nova aventura, quebra um pouco mais a cara.Como um Dom Quixote que tivesse trocado os romances de cavalaria pela literatura beat, Leonardo parte para enfrentar uma América imaginária e descobre, no caminho, uma América muito mais estranha, contraditória e banal. A viagem transforma-se, assim, em outra coisa: uma longa ressaca depois da embriaguez do sonho.
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