Entre 1972 e 1985, o KM 75 não era apenas um ponto na imensidão da Transamazônica, mas um ecossistema pulsante de convivência e dignidade. Nesta crônica memorialística, o autor resgata a rotina de um povoado que floresceu entre o barro e o improviso, onde a ausência de luz elétrica era compensada pela clareza das relações humanas e pela força de uma comunidade autossustentável. O relato percorre a infância vivida à sombra do DNER, o aprendizado informal sob o céu do Tocantins e a arquitetura afetiva de uma família que, mesmo diante da precariedade, construiu um oásis de civilidade no coração do Brasil.A narrativa ganha contornos de urgência quando a demarcação das terras indígenas interrompe bruscamente esse ciclo, forçando o desterro de quem ali plantou raízes. Longe de ser apenas um exercício de saudade, estas páginas oferecem um inventário de uma felicidade possível e um testemunho de resistência contra o esquecimento. Ao mapear o que a burocracia apagou, a obra questiona o valor do progresso e reafirma que, mesmo quando o chão é subtraído, o território da memória permanece como um alicerce inabalável de identidade.
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