Reginaldo Moraes desconstrói, nestas páginas, a rotina silenciosa de um bairro que encontrou no seu jornaleiro o símbolo mais perfeito de estabilidade, sem perceber que essa mesma previsibilidade servia de escudo para um predador. A investigação factual desta série de crimes revela que a maior arma do assassino não foi a frieza de seu instrumento perfurante, mas a cegueira deliberada de uma vizinhança que confundiu a cordialidade cotidiana com a virtude.Através de uma reconstrução minuciosa dos quarenta e cinco episódios de violência, a narrativa expõe as falhas críticas da polícia e a fragilidade do tecido social que prefere a negação ao reconhecimento do perigo imediato. Longe de recorrer ao sensacionalismo, o autor conduz o leitor por um labirinto onde a rotina se torna o disfarce mais eficiente para o horror.Ao encerrar a leitura, fica o desconforto de uma verdade incontornável: o mal não precisa de esconderijos complexos quando pode se ocultar à vista de todos, protegido pela preguiça intelectual daqueles que o cercam. Esta obra é um mergulho corajoso na mecânica da impunidade e no limite tênue que separa a vizinhança comum do abismo escondido atrás de um sorriso diário.
Veja mais