Como narrar uma história por meio da poesia? Essa é uma questão antiga, tão antiga quanto a Antiguidade, mas que foi duramente colocada em xeque pela ascensão do romance nos últimos três séculos. A poesia perdeu, diante da vitória dessa forma específica de prosa, parte de seu espaço e de seu lugar. Quando a literatura quer mergulhar no real ou pretende criar o efeito de real, a expectativa do leitor contemporâneo é encontrar a prosa, não a poesia. Depois dos modernismos do século XX, a fragmentação vicejou, colocando ainda mais de lado as opções narrativas em verso de fatos e acontecimentos. Não que elas tenham desaparecido, mas, longe de serem a forma dominante, a exposição dos acontecimentos como que ficou a reboque de experimentações formais e expressões do indivíduo na maior parte dos livros de poesia. Alguns poetas, como João Cabral de Melo Neto, encontrarão no texto teatral versificado a alternativa para se fazerem ler, seja reconstituindo uma biografia como a de Frei Caneca, seja contando as dores do sertanejo diante da seca. Assim, depararmo-nos com poemas que se constroem a partir da história e do real, do coletivo ou de uma nação, somos desafiados enquanto temerosos leitores contemporâneos de poesia. O que esperamos encontrar? Os fatos não matarão os versos? Temos um projeto ético ou estético? Questionamentos que, não raro, acabam por justificar uma fuga crítica, que exprime mais um sinal de covardia do que de dúvida justa. O pelo da palavra e outros crimes, de Renato Franco, enfrenta, com sucesso, tal risco. Desde o primeiro poema, 1968, Dezembro, da parte intitulada Crimes diversos, reconhecemos o AI-5 como o pontapé inicial de uma aventura histórica e poética de enfrentamento político e estético. Composições como a verdade dura dos tanques, alinhadas ao horizonte de capacetes que anuncia — e prenuncia — medalhas / triturando versos, indicam que a força dos fatos não fica aquém da qualidade dos versos. Os sentimentos estão aqui e ali, e são coletivo
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