É digno de nota lembrar que a poesia de Marcelo Torres é o resultado de suas influências literárias e da leitura do mundo. Especialmente porque os seus devires poéticos são semelhantes a um rio carregando tudo que possa alcançar. Os afluentes são os livros que desaguam em novos encontros literários e também na vida, qual ela sangra. Assim, na magnética coletânea Serpente com flores, o poeta não fica preso numa torre de marfim ou num quarto fechado que não entra ar, ele entra nos subterrâneos da alma que habita uma realidade ameaçada e fragmentada e que dá continuidade ao seu ofício, que é também cantar a rosa. Lembrando que na sua jardinagem, ele não se esquece de perguntar pelos espinhos que estão nos afetos e na contemporaneidade. Nessa seara, se Marcelo Torres faz uma ode às flores, é com a mesma intensidade de um poeta maldito, amante do disforme, que canta o tabaco e tudo que contrasta com o belo. Nesta lírica das rosas tudo é orgânico. Se o poeta canta as contradições e o noturno, e sabe que é preciso cultivar flores, também sabe que é preciso olhar para uma rua suja que expõe toda a fealdade.
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