Neste primeiro quarto de séculoé certo que vivemos tempos intranquilos. Mas que épocaem seus próprios termosnão se compreendeu assim? Vivemos tempos cheios de incertezase issode certo modonos desconcerta. Mas não seria possível imaginarmos a vida histórica e social como constitutivamente incertapor que sempre aberta às ações dos mais diversos corpos e agentes? A angústia do que é desconhecido e instável poderia serassimrepensada. Os tempos incertos são também épocas plenas de expectativas e de possibilidades. Nada está definitivamente decidido ? nada está de todo perdido. Nossos tempos são difíceis ? no entantoessa frase soa como uma frase de sentido esvaziadocomo um clichê. Um molde sobre o qual tantos tempos e lugares produziram a própria imagem: a poesia e o pensamento de diferentes épocas e povos. E para isso inventaram as suas formas de dizê-lo. Dizer que um tempo é difícilentãoé dizer muito pouco sobre a sua singularidade. Nossos tempos são vertiginosos e de nervos à flor da pele. Tudo acontece com uma velocidade tempestuosa. Talvez por isso também nossos tempos produzam pensamentos intranquiloscheios de incerteza.Pensamentos intranquilos ou incertos são também formas do saber que não se orientam por um mesmo princípio ? nas suas áreas de interesse ou nos seus arranjos formais. Esses pensamentos não se organizam em uma unidade. São plurais e imprevisíveise por isso mesmo desorganizam as disciplinas e os campos do saber constituídos de modo estávelabrindo espaçonesse movimentoà potência de imaginar outros modos possíveis de reflexão e atuação.
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