A prosa deliciosa de Maria Dolores já seria suficiente pelo prazer da literatura. Mas, em A lua no terreiro, ela nos dá ainda de presente uma história com a qual é impossível não se identificar. Como a protagonista Beatriz, que foge para um sítio longe da cidade grande, todos vivemos a pandemia, um período sem dúvida inconveniente e trágico, mas que acabou nos levando a lugares inexplorados por caminhos nunca imaginados. E muitas vezes bons, de autoconhecimento e reconhecimento do outro, como a beleza que sempre pode emergir em meio ao caos. A lua no terreiro é aquela história particular que consegue ser extremamente universal, não só pelo confronto com uma doença desconhecida e fatal e pela rotina de cuidados e protocolos a que tivemos que nos submeter, mas também por falar de encontro num momento em que a regra de sobrevivência é o isolamento social. De repente, ilhas de vida se esbarram: a mulher urbana de meia-idade separada com seus filhos pequenos e dois adoráveis anciões. Ao fugir da doença e buscar a si mesma, Beatriz acaba descobrindo gostos e talentos que, como executiva, jamais se revelariam para ela. E, ao conhecer vivências tão diferentes da sua, percebe que ver de verdade o outro nos ajuda a colocar nossas questões no devido lugar, relativizar nossos dramas e valorizar o que é essencial. Como diz a personagem, são histórias que a gente escreve por dentro e nunca mais apaga
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